Querido Eu
Querido eu, não te escrevo por ternura, escrevo porque estou cansado de te ver sobreviver. És o eco das escolhas adiadas, o rumor dos medos sem nome, a máscara colada ao rosto até o rosto já não saber quem é. Dizes prudência, eu chamo medo. Dizes calma, eu vejo adiamento. Dizes que é maturidade, mas há um corpo em desistência a aprender a respirar cada vez mais pequeno. Habituei-me a ver-te ao longe, como quem olha um incêndio sem correr para apagar. E o que mais dói não é o erro, é a beleza triste com que o tentas explicar. Levanta-te, destreina o corpo da contenção. Diz não onde disseste sempre talvez. Diz sim onde fingiste indiferença. Parte a paz dessa versão domesticada. Ainda há uma fresta, ainda há um caderno, Recordo o rapaz antes de ti, sem pedir desculpa por existir, a escrever futuros em cadernos com fome de céu e de caminho. Onde o deixaste, em que ano o enterraste, quando trocaste o que era vivo por aquilo que era aceitável. Fizeste um pacto com o mínimo, chamaste destino ao que era medo, guardaste a fome para dentro e ensinaste o peito a negá-la. Depois sorriste com elegância, como quem não quer incomodar, um artesão do silêncio, um perito em se poupar. Mas nenhum coração resiste a tanto tempo em defesa. Nenhuma alma atravessa a vida sem pagar o preço da contenção. E a tua sensatez tão admirada está a envelhecer-te devagar, como chuva repetida em ferro por cuidar. Levanta-te, destreina o corpo da contenção. Diz não onde disseste sempre talvez. Diz sim onde fingiste indiferença. Parte a paz dessa versão domesticada. Ainda há uma fresta, ainda há um caderno, ainda há um nome por cumprir em ti. Não é ódio, é demora. Não é desprezo, é memória. É o ressentimento mais honesto de quem ainda espera que te tornes aquilo que prometeste ser. Faz luto do homem que encolheu. Vai buscar o rapaz que não morreu. Dá-lhe de novo a página em branco, e deixa-o escrever sem pedir perdão. Levanta-te, antes que a prudência te apague. Diz não ao que te quer pela metade. Diz sim ao risco de seres inteiro. Perde a compostura, mas salva o fogo. Ainda há uma fresta, ainda há um caderno, ainda há um lugar vazio à tua espera. Querido eu, lê isto como uma convocatória. Não como carinho, mas como regresso.
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